Hipnose
Publicado em 1º de outubro de 2017
Prática antiga, a hipnose vem fazendo há vinte anos um retorno destacado aos hospitais. Cada vez mais profissionais de saúde usam essa técnica para aliviar a dor dos pacientes, inclusive durante procedimentos pesados. Reportagem no departamento de Odontologia do Professor Vianney Descroix, no hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris.
Concentre-se nos sons ao nosso redor
A voz é colocada, o fluxo diminui e as palavras são cuidadosamente escolhidas. Enquanto o cirurgião-dentista e seu assistente estão ocupados organizando os instrumentos numa bandeja, o Prof. Vianney Descroix inicia a sessão de hipnose que permitirá ao paciente entrar no que é conhecido como estado de consciência modificado, o tempo de colocação de dois implantes dentários simples. Do que se trata? « A hipnose permite que os pacientes estejam em outro lugar enquanto estão sendo tratados e, dessa forma, colocam em segundo plano o que está acontecendo e, assim, modulam a intensidade da sensação dolorosa », explica o chefe do departamento de odontologia do hospital parisiense de Pitié-Salpêtrière. No entanto, o protocolo exige que a hipnose esteja associada à anestesia local.
Deitada na cadeira, Mai Le Thi, de 62 anos. Esta filha de dentista sofre de um grave reflexo de náusea, que dificulta qualquer procedimento dentário. Após uma primeira operação sob anestesia geral, ela fez a opção pela hipnose. « As anestesias gerais repetidas acabam sendo pesadas», observa ela. Foi o Prof. Descroix que fez a proposta, e ele será seu « guia « durante toda a intervenção. Apoiado atrás da cadeira, ele não moverá uma palha. A cabeça de Mai Le Thi parece descansar em seus braços enquanto ele sussurra quase continuamente palavras suaves em seu ouvido.
O gosto das cerejas
Da qualidade do diálogo estabelecido entre o hipnoterapeuta e o paciente depende, é verdade, o sucesso da intervenção. Além das fórmulas e dos termos obrigatórios (« Tranquilamente », « Calmamente », « Está bem, está perfeito », « Inspire pelo nariz, expire pela boca », etc.), é necessário primeiro ter conseguido estabelecer uma troca baseada na confiança. « O objetivo é garantir o conforto do paciente. Então, há uma sessão de preparação, durante a qual eu explico ao paciente o que vou fazer e peço que ele pense num lugar aonde queira ir e me contar o que essa evocação causa nele. No caso da Sra. Le Thi, era a cerejeira do seu avô », conta o Prof. Descroix. Assim, a colocação de ambos os implantes será feita sob a égide do gosto das cerejas. Mas além da música, o paciente também expressou o desejo de « tocar« seu instrumento, o violoncelo. Em resumo, se concentrar em suas partituras.
De fato, e ao contrário do que pensamos muitas vezes, a hipnose não tem nada a ver com o desapego. Um paciente em estado de hipnose está ativo. « A hipnose é um estado de absorção e concentração muito intenso, que permite que o corpo esteja na cadeira e a mente, em outro mundo », lembra o Prof. Descroix. E é essa distanciação-distorção que lhe permite controlar a dor.
Outra relação com o paciente
Desde a década de 1990, muitos estudos destacaram a ação da hipnose no cérebro. Foi possível « desligar« no paciente em estado de consciência alterado algumas áreas do córtex cerebral envolvidas no controle da dor. Isso prova que corpo e mente não são dissociáveis. « É fascinante ver que esse impacto no cérebro é conseqüência dos efeitos das sugestões sobre o corpo», destaca o Prof. Descroix.
Mesmo absorvido por lembranças agradáveis, o paciente permanece acordado. Isso obriga os praticantes a mudarem sua abordagem e se comunicar de forma diferente entre eles. « Há um pouco mais de estresse no sentido de que a hipnose é mais frágil do que a anestesia geral, afirmou o Dr. Rafael Toledo, cirurgião-dentista que operou a Sra. Le Thi. Então, precisamos mudar os procedimentos. O ato, por exemplo, é mais lento, mas também menos brutal. Existem lugares que não se podem tocar. Mesmo assim, o assistente deve se colocar de forma diferente, etc. » No entanto, o Dr. Toledo aprecia a calma de uma intervenção sob hipnose. « É muito relaxante, mesmo para nós », destacou ele.
Menos analgésicos
Mas os benefícios são especialmente óbvios para o paciente. « Observa-se que os pacientes se recuperam mais rapidamente, ficam menos doloridos e sua cicatrização é melhor. Isso que resulta num consumo menor de analgésicos », enumera o Prof. Descroix. Como prova, mal terminou a intervenção, e Mai Le Thi já estava de pé, em plena posse de suas faculdades, e nem um pouco grogue. « É como se ela estivesse acordando de um cochilo bem curto », comentou o Dr Toledo. E o que a pessoa diz? « Correu tudo muito bem, e é muito melhor do que com anestesia geral », respondeu ela. Ela não esconde que teve, em alguns momentos, sensações de dor, mas acrescenta que, « a escolha da hipnose me tranquilizou quanto aos meus reflexos de náusea indesejados ». E o método ainda é menos assustador e, obviamente, mais eficaz, do que a técnica conhecida como « engolidor de espadas« , que Mai Le Thi tentou com uma escova de dentes para tentar dessensibilizar o fundo da boca!
Quanto ao Prof. Descroix, o tempo gasto acompanhando seu paciente não parece tê-lo esgotado. « Pode parecer longo, mas no final, passa muito rapidamente porque você mesmo se desliga um pouco da consciência normal. »
Mergulhar nas nossas memórias de infância
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1950Milton Erickson estabelece uma reflexão sobre a forma de comunicação hipnótica
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45 minutosDuração de uma sessão
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2 semanasAs sessões são realizadas aproximadamente a cada duas semanas


